| |
|
.histórico
da unidade de ilhotas pancreáticas
Depoimento da Profa. Dra. Mari
Sogayar
Meu envolvimento com as ilhotas pancreáticas data de 1994,
quando fui procurada pelo médico endocrinologista clínico,
Dr. Freddy Goldberg Eliaschewitz, chefe do Setor de Endocrinologia
do Hospital Heliópolis. Diante das dificuldades de tratar o
diabetes juvenil (tipo I) ou mesmo aquele que acomete adultos em idade
mais avançada (tipo II) devido as limitações
da insulinoterapia (complicações crônicas, hipoglicemia
intermitente grave) o transplante de ilhotas de Langerhans aparecia
como uma alternativa atraente, embora o processo de isolamento e purificação
destas ilhotas estivesse ainda em franco desenvolvimento. Sempre nutri
um grande interesse em encontrar aplicações para a competência
instalada no laboratório, mas, apesar disto, relutei diante
da extensão deste desafio e da ameaça que podia representar
um desvio das linhas de atuação do laboratório
até então. Por via das dúvidas, tomei o caminho
intermediário: explorar por um tempo limitado, para conhecer
melhor o sistema e verificar a viabilidade de um projeto deste tipo,
ao lado daqueles de pesquisa básica, nos quais o laboratório
vinha investindo.
Na fase exploratória, contei com a ajuda da Dra. Claudimara
Lotfi, que não poupou esforços para tentar estabelecer
a tecnologia de isolamento e purificação de ilhotas
caninas. Durante um par de anos, enfrentamos enorme dificuldade,
trabalhando no próprio Laboratório de Biologia Celular
e Molecular, que não estava aparelhado para isto, colocando
em risco, muitas vezes, as culturas de células do laboratório,
uma vez que os cães de onde se originavam os órgãos
eram de procedência duvidosa. Chegou-se a uma encruzilhada:
Claudimara seguiu para um estágio de pós-doutorado
em outro laboratório e eu resolvi visitar um grande centro
gerador de ilhotas humanas: o Diabetes Research Institute (DRI,
Miami University, FL, EUA). Graças à mediação
do Professor Marcos Mares-Guia, brasileiro, fundador da Biobrás
S. A. (maior empresa brasileira de Biotecnologia, produtora de insulina
porcina e humanizada), que passara a morar em Miami e trabalhar
no DRI, fui muito bem recebida pelo Diretor deste Instituto, o Dr.
Camillo Ricordi. Voltei de Miami decidida a continuar investindo
neste projeto, mas, agora, com pâncreas humanos.
Por sorte, nesta ocasião, fui procurada pela Dra. Maria Lúcia
Cardillo Corrêa, recém doutorada na área de
Endocrinologia Molecular, sob a orientação do Dr.
Daniel Giannella Neto, na Faculdade de Medicina da USP, para efeito
de um estágio de pós-doutorado. Com bolsa de Pós-doutorado
concedida pela FAPESP em tempo recorde, e com extraordinária
competência e determinação, mergulhou nas tarefas
de ajudar a montar a Unidade de Ilhotas Pancreáticas Humanas
e de viabilizar a purificação de ilhotas humanas e
de formar pessoal qualificado para esta finalidade. Sua contribuição
foi decisiva para o sucesso desta empreitada.
Coordenado pelo Dr. Freddy Eliaschewitz, formou-se, então,
um grupo multidisciplinar de médicos clínicos e cirurgiões
e pesquisadores da área básica, para levar avante
a idéia de isolar e purificar ilhotas pancreáticas
humanas, para, no futuro, poder oferecer transplante de ilhotas
a pacientes diabéticos. Um projeto foi montado para solicitar
apoio da FAPESP e um espaço foi solicitado ao Depto. de Bioquímica
e IQ-USP, para a montagem de um laboratório para esta finalidade.
O apoio da FAPESP foi integral e decisivo e, da mesma forma, encontramos
enorme disposição do Depto de Bioquímica, chefiado,
na época, pelo Prof. Walter Terra e da administração
do Instituto de Química, abrindo o caminho, cedendo todo
o espaço solicitado, para a instalação daquilo
que foi denominado Unidade de Ilhotas Pancreáticas Humanas
(UIPH). Desde logo ficou claro que, na impossibilidade de se poder
contar com a contratação de pessoal especializado,
era necessário aglutinar alunos de pós-graduação
e de Iniciação Científica e alguns pesquisadores
pós-Doutorados, para interagir com a equipe cirúrgica
e conseguir pâncreas em condição de ser processado
para a produção de ilhotas.
Como o alotransplante de ilhotas implica em reações
adversas de rejeição, diversos grupos, em particular
um grupo italiano (do Dr. Riccardo Calafiore) vinham desenvolvendo
materiais e processos para o microencapsulamento das ilhotas com
materiais biocompatíveis, que permitissem seu imunoisolamento.
O objetivo do trabalho do Prof. Mares-Guia, no DRI, era exatamente
este. Montamos, então, uma colaboração com
este pesquisador, para testar e ajudar a desenvolver materiais para
esta finalidade, em nossa Unidade de Ilhotas. Na época, ficou
claro para mim, que a elaborada arquitetura da ilhota e seu microambiente
pancreático, eram essenciais para seu bom funcionamento.
Para garantir a continuidade do projeto de isolamento e purificação
de ilhotas e sua expansão para o microencapsulamento de ilhotas
e a Engenharia de Tecidos, montou-se um novo projeto, em colaboração
com a Biobrás S. A. e a Biomm Inc. (empresa fundada pelo
Prof. Mares-Guia, em Miami), o qual foi submetido à FAPESP
dentro do seu recém-criado programa de Inovação
Tecnológica. Novamente, encontramos total apoio da FAPESP
para esta iniciativa.
Ao longo dos últimos anos, o projeto contou com a colaboração
de 2 cirurgiões (Drs. Tércio Genzini e Marcelo Perosa
de Miranda), uma nefrologista/imunologista especialista em transplante
(Dra. Irene Noronha), 2 endocrinologistas (Drs. Freddy Goldberg
Eliaschewitz e Denise Franco), 4 pos-doutorandos (Dras. Maria Lúcia
Cardillo Corrêa, Silvya Maria Engler e Letícia Labriola
e Dr. Carlos Aita), 4 alunos de Doutorado (Carlos Mayora Aita, Elizabeth
Maria Oliveira, Karin Krogh e Fernando Lojudice da Silva), 3 alunos
de Iniciação Científica (Theri Degaki, Christian
Colin e Denise Loli) e 5 técnicos de laboratório (Alexandre
Z. Carvalho, Marinete de Fátima Carvalho, Irenice Cairo da
Silva, Tatiana Corrêa e Patrícia Barros dos Santos).
Alem disso, temos contado com a colaboração importante
de diversos pesquisadores da área básica, como dos
Profs. Drs. Helena Nader e Peter Dietrich (EPM/UNIFESP), que tem
permitido explorar melhor a composição estrutural
do pâncreas, para mimetizar o micro-ambiente pancreático
e aumentar a probabilidade de sobrevivência e manutenção
da função (de síntese e secreção
de insulina) das ilhotas, do Prof. Dr. Pedro Soares de Araújo
(Depto. de Bioquímica/IQ-USP), com quem estamos explorando
a possibilidade de melhorar a criopreservação das
ilhotas, do Prof. Dr. Pio Colepícolo (Depto. de Bioquímica/IQ-USP)
e sua doutoranda Adriana Carvalho, que tem analisado a influência
de radicais livres de oxigênio na sobrevivência das
ilhotas, Prof. Dr. Renato Mortara (EPM/UNIFESP) para a caracterização
das culturas de ilhotas através de marcadores celulares e
microscopia confocal, entre outros.
Atualmente, estamos investindo, também, na cultura de ilhotas
e de diversos outros tecidos pancreáticos, inclusive de tecido
ductal pancreático, cujas células-tronco ("stem
cells") são conhecidas por sua capacidade de proliferação
e diferenciação, gerando novas ilhotas, num processo
conhecido como neogênese. Este caminho poderia permitir contornar
o grave problema de escassez de órgãos, alto custo
para o processamento de pâncreas e rendimento sub-ótimo
de ilhotas, levando à necessidade de se utilizar mais de
um doador para obter o número necessário de ilhotas
para um transplante.
Outro caminho é a modificação genética
de diferentes tecidos pancreáticos, por Engenharia Genética,
para imortalização, com diferentes genes imortalizantes
e/ou transferência do gene que codifica a insulina ou mesmo
de outros genes cujos produtos podem permitir contornar o problema
da rejeição. Como as células beta tem baixíssimo
potencial proliferativo, a expressão estável requer
vetores baseados em lentivírus (o mesmo do HIV).
O preparo de ilhotas para transplante em pacientes diabéticos
e a transferência gênica através de vetores lentivirais,
exigem padrões internacionais de qualidade conhecidas como
cGMP ("current Good Manufacturer's Practice"). Para cumprir
estas exigências, com apoio da FAPESP, a Unidade de Ilhotas
Pancreáticas Humanas foi reformada para a construção
de uma Sala Biolimpa, padrão cGMP, com ar filtrado, pressão
positiva, ante-sala/vestiário, etc. Este "upgrading",
aliado ao treinamento da equipe e à melhoria da qualidade
e do rendimento de ilhotas, permitiu à nossa equipe, a realização
do primeiro transplante de ilhotas no Brasil, em Dezembro de 2002.
Outro desafio que se resolveu enfrentar, em colaboração
com o setor empresarial (Biobrás S/A, Biomm Inc e Biomm S/A),
foi o encapsulamento de ilhotas, numa tentativa de permitir o isolamento
destas do sistema imune e de livrar o paciente transplantado da
necessidade de utilizar drogas imunossupressoras. Espera-se poder
adicionar às cápsulas, materiais extraídos
do próprio pâncreas, para mimetizar, ao máximo
o ambiente pancreático e poder oferecer, no futuro, o transplante
de ilhotas encapsuladas, meta que ainda não foi atingida
por nenhum centro mundial.
Diversos projetos de Ciência básica, baseados em ilhotas,
foram montados, visando revelar os genes associados com a resposta
proliferativa de células beta e, ainda, marcadores tumorais
que permitam não só o diagnóstico diferencial
de insulinomas (adenoma versus adenocarcinoma), mas, também,
o seguimento terapêutico e, no futuro, até a terapia
gênica. |